19 de março de 2018

Entrevista com Patrícia Lima, fundadora da Simple Organic Beauty

Por: Verônica Portugal

 

A conscientização a respeito dos impactos sociais e ambientais causados pela produção da indústria da moda e da beleza, ganha cada dia mais adeptos, causando grandes mudanças nas empresas do setor. A lógica do consumo muda, tendo agora o consumidor como protagonista e não como um simples receptor passivo. As pessoas querem fazer escolhas mais conscientes, e querem conhecer a fundo o produto que consomem. E dentro dessa mudança de paradigmas, surgem diversas marcas que já nascem numa nova era, cercada de novas filosofias.

Dentre essas, a Simple Organic é uma que vem se destacando no cenário nacional. É uma marca de produtos de beleza, orgânicos e veganos, livres de uma série de ingredientes sintéticos que fazem parte das maquiagens em geral, como parabenos, petrolatos, parafina, silicone, entre outros. A marca tem uma filosofia de resgatar a beleza do natural e preza pela ética em todos os processos de produção do produto. Batemos um papo com a Patrícia Lima, fundadora da Simple Organic. Falamos sobre o futuro da marca, sustentabilidade e a forma como ela encara a responsabilidade da marca no mercado. Vem ver!

 

 

1-Como funciona o processo de concepção da ideia de um novo produto da Simple? Quais pontos são levados em consideração na hora de desenvolver um produto de beleza ou de cuidados para a pele?

O ponto principal, que eu Patricia, como fundadora da marca penso, é que tudo o que eu acho de muito interessante no universo sintético e que tenho vontade de consumir, eu rapidamente pego aquilo e levo para o laboratório para que consigamos encontrar soluções de fórmula e matéria-prima para chegar a um resultado e oferecer isso para o mercado.

Então a primeira ideia é possibilitar o que tem no universo sintético na sua versão orgânica/vegana. Nem tudo é possível, porém, boa parte é. É possível ter um produto limpo, atingindo a mesma performance, com uma beleza limpa, usando o que a natureza tem de melhor. Esses são os critérios: levar a beleza que a natureza nos oferece com o desejo do consumidor que quer comprar esse produto sem agredir sua pele e a sua saúde. Pelo contrário: agregando saúde à sua rotina de beleza.

 

2-Quais são os desafios enfrentados por uma marca que se propõe a ir na contramão da indústria atual? Existe mais resistência ou mais aceitação por parte dos consumidores e das empresas do mesmo ramo?

O maior desafio é vencer o Greenwashing, que é a história do marketing verde que não é verdadeiro, mas muito mais um discurso de vender a sustentabilidade e a saúde, a beleza natural sem ser beleza natural. E estamos falando dos grandes players do mercado. Esse esforço que se vê acontecendo ainda não é tão verdadeiro como ele deve ser, mas ele vai se tornar verdadeiro, é um processo lento que a gente vê evoluindo, por que as próximas gerações vão exigir. A gente já vê uma mudança de comportamento nas gerações atuais, a Y, por exemplo, que busca muito mais essa informação, de saber de onde vem esse produto, agregar valor ao produto que realmente significa algo à sociedade e ao planeta. As grandes indústrias ficarão acuadas com as próximas gerações. A geração Z não vai mais se adaptar ao processo de fabricação de indústrias que poluem, por exemplo. Ainda estamos engatinhando nesse processo, ainda temos muito a melhorar, mas isso tudo vai acontecer com o crescimento da geração Z e das próximas. A indústria de grandes players só vai mudar na raiz e no seu DNA quando elas sentirem essa exigência em sua totalidade. A gente passa por uma era de transformação, de conscientização muito rápida – a gente vê isso acontecendo na alimentação muito mais rápido que na beleza -, mas é um processo sem volta e que tem seu tempo para acontecer. Sinto que, cada vez mais, as pessoas estão se preocupando mais com os ingredientes, não só dos alimentos, mas dos produtos que colocam em contato com a sua pele. Dessa forma, a maquiagem natural e orgânica tem ascendido cada vez mais no mercado. A conscientização é crescente e a aceitação também.

 

 

3-Os produtos da Simple carregam um grande valor ligado ao autocuidado e ao amor próprio. Como vocês enxergam as discussões atuais acerca do empoderamento feminino, e como é possível colocar a mulher como protagonista de seu corpo a partir da estética e do cuidado com a aparência?

É possível através da ferramenta de informação. Quando a gente vê anos e anos a indústria e a sociedade impondo padrões que não são reais para boa parte das mulheres, a gente vê que é hora de mudar.

Mesmo sendo recente a história do empoderamento dentro da indústria de beleza, a gente ainda vê de maneira muito superficial, pois ainda está ligado à estética. E na verdade, a gente tem que ter um olhar muito mais político, uma discussão muito mais profunda. Quando a gente vê o papel da mulher na sociedade, a importância dela no mercado de trabalho e na constituição do seu lar e da sua família e como isso, sim, pode reverberar de dentro para fora, aí a estética passa a fazer sentido.

A questão não só é para a mulher, como para qualquer ser humano. Você tem que estar confortável na sua pele, confortável com quem você é, mas brigar e lutar contra o mundo é muito difícil. Todo esse movimento que a gente vê acontecendo é mais que necessário, ainda que atrasado, mas precisamos ver essa mudança na sociedade e de maneira muito prática. A Simple tem dentro do seu público consumidor um perfil de pessoas que querem realmente mudar o mundo, que realmente apoiam e valorizam todas atitudes que a gente sim, como uma marca que é comercial e tem produtos para venda consegue levantar bandeiras de maneira transparente e verdadeira.

Então isso faz com que a atividade de uma marca traga uma legião de consumidoras preocupadas em empoderar outras mulheres, em lutar pela desigualdade de gênero entre homens que as apoiam, que querem uma nova visão, uma nova sociedade. Não é só urgente, como é muito necessário que isso se faça. Enquanto existirem indústrias trabalhando estereótipos de maneira separada, empresas de publicidade trabalhando quase que por cotas e não de maneira verdadeira, por exemplo, grandes marcas trabalhando com uma ruiva, uma negra, uma loira, uma morena, isso é quase como ter uma representatividade de cota.

Quando temos uma pessoa que acreditamos na beleza dela, exemplo a Beeeells (Isabella Trad – @todebells), que é nossa primeira embaixadora de beleza, porque não só ela faz com que outras mulheres sejam empoderadas, como traz a discussão muito segmentada sobre gordofobia do meio. Ela é uma pessoa puramente confortável com o seu ser, feliz da maneira que ela é, representando outras mulheres, trazendo isso de maneira verdadeira. Por isso que apoiamos e gostamos dela junto conosco. A minha defesa é  essa: trabalhar com cotas não é legal, ter uma comunicação muito planejada sem ser espontânea não ajuda nessa questão verdadeira. Cada vez mais que se é dado voz para essa consumidora, nós empoderamos as mulheres. Quando trazemos elas juntos com o homem e falamos sobre a isenção de gênero dentro de uma marca, estamos lutando contra todas as desigualdades.

 

 

4-No site da Simple, toda a história da marca é contada na primeira pessoa, a partir da sua ótica, Patrícia, e a gente consegue sentir como se estivesse conversando com você. Qual a importância que vocês dão para este contato mais direto e íntimo com os consumidores da Simple?

A gente não cria uma barreira entre marca e consumidor. Somos todos pessoas querendo um mundo melhor. Algumas produzindo um produto que vem de encontro aos valores que a gente busca para o mundo, outras consumindo. Todas estão dentro do mesmo objetivo: de transformar o mundo de alguma maneira, de que com uma pequena atitude você mostrar que aquilo vai fazer diferença no seu dia a dia.

Acreditamos que somos um time só. Eu trago isso desde o meu ambiente de trabalho. Eu não consigo pensar muito em hierarquia. Não é algo que me agrada. Acho que a gente sempre tem que se colocar ao lado do outro ser humano, seja no trabalho, no consumo, no estilo de vida. A Simple é isso.

A gente vem passando pelo processo de franquear uma marca, que é o que está acontecendo no momento, estamos tendo muita cautela porque queremos que seja uma rede de pessoas do bem, que tenham os mesmos objetivos que a gente e não apenas abrir um ponto comercial para vender um produto que nesse momento elas veem que é muito lucrativo porque existe uma demanda do mercado. A gente quer que as pessoas tenham sempre consciência: seja a pessoa que vai abrir o ponto de venda ou quem compra da gente, de que é um produto que tem uma aplicação, tem um resultado, tem linha de maquiagem, tem linha wellness (corporal/facial), ou seja, vai muito além disso.

Vem de você falar uma nova linguagem, vem de você falar sobre novos valores, valores que a gente tem urgência de mudar. É latente que a gente mude a sociedade e mude o mundo para as próximas gerações. A linguagem é íntima sim, principalmente nas redes sociais. A gente gosta dessa proximidade e isso faz total diferença e como marca a gente se coloca ao lado do consumidor porque é um mercado que a gente vai descobrir todos os dias. Todos os dias a gente está descobrindo novas matérias-primas, está descobrindo coisas que o consumidor vai gostar e que a gente quer ouvir o feedback dele, seja positivo, seja negativo, seja sugerindo embalagem… A gente vem, por exemplo, agora fechando um ano de marca com ajustes de embalagens em cima da demanda da nossa consumidora: o consumidor que gosta de viajar e achava que aquela embalagem não era ideal. A gente acredita muito em uma marca “do bem”, que é construída a quatro mãos: as mãos de quem faz a marca e mãos de quem consome a marca.

 

5- Como a Simple vê este movimento atual de responsabilidade ambiental, consumo consciente e reconexão com a natureza, e como esta filosofia tem se comunicado com os jovens urbanos e cosmopolitas acostumados com o ritmo frenético de consumo nas grandes cidades?

A Simple Organic é uma marca muito contemporânea.  A gente tem um produto que é um sucesso e muito desejado, que é o Green Water, um produto puro, sem interferência industrial, que acontece num processo de destilação do óleo essencial que sai diretamente do caule da folha da Pitangueira. Além dele ter todas as propriedades para tratar sua pele na questão estética e de saúde, é um produto que te energiza. Ele tem um cheirinho do orvalho da manhã, então você pode estar em uma metrópole e por um momento você tem aquele momento de escape, que é tão importante para você se reconectar com você mesmo.

É uma marca contemporânea que quer sim levar esse acesso da natureza pura para dentro da casa das pessoas. Quando você abre uma embalagem da Simple, você sabe que aquele produto está levando a natureza para dentro da sua casa e sem agredir a natureza, fazendo com que a gente tenha todos os cuidados da sustentabilidade, principalmente quando o lixo que a gente gera é neutralizado através do selo “Eu Reciclo”.

Essa conexão com a natureza é o mínimo que a marca propõe, porque entre tantas coisas que ela oferece, como um futuro melhor para as próximas  gerações, ela oferece uma linha de embalagem com design e com personalidade que é neutralizada após o seu consumo, ela oferece uma linha de maquiagem que tem certificações do mercado das certificações orgânicas, que a pessoa sabe que a matéria-prima é rastreada, enfim, são muitos os benefícios que a Simple oferece e o principal e mais básico é levar essa conexão com a natureza e o bem-estar para cada pessoa que consome.

 

 

6-No Brasil, quando se fala em produtos orgânicos, veganos, etc., ainda existe uma ideia generalizada de que são produtos caros e feitos para pessoas que levam um estilo de vida fora do comum. Como a Simple enxerga o desafio de desmistificar este estereótipo e fazer com que mais pessoas se interessem pelos produtos? 

Hoje em dia esses valores já estão democratizados. Já existem várias opções para o consumidor que precisa pesquisar e entender mais do conceito, do universo e da beleza natural e do Slow Beauty. Então, não existe mais essa variação de preço, já que as marcas naturais já estão em uma linha de combate de preço e acessibilidade igual às das sintéticas. Cada vez mais, as pessoas estão se preocupando mais com os ingredientes, não só dos alimentos, mas dos produtos que colocam em contato com a sua pele.

Dessa forma, a maquiagem natural e orgânica tem ascendido cada vez mais no mercado. A conscientização é crescente. Mesmo com o alto investimento no desenvolvimento dos produtos e também em certificações como Ecocert e PETA (que a Simple Organic possui), é possível democratizar o acesso ao produto natural e orgânico. Um dos princípios da Simple Organic é ser uma marca acessível e com enorme qualidade de produto, em que o consumidor não precisa colocar na balança o investimento. Oferecemos a possibilidade de escolha, onde ele precisará apenas decidir por um cosmético natural ou sintético para o seu consumo.

 

7-A Simple tem planos de expansão para o mercado exterior? Como é encarado o desafio de garantir a qualidade e certificação ética dos produtos no caso de uma produção em larga escala? 

Sim, a gente já vem nesse processo. Temos muita procura do mercado europeu, porque a questão do consumo de produtos orgânicos na Europa é muito grande. Nos Estados Unidos também, porém na Europa existe uma consciência. Nos Estados Unidos, a gente vê uma questão de sustentabilidade muito ligada à nossa embalagem e à identidade da marca, até mesmo porque nossas referências são da beleza da Califórnia, que é super natural e tem marcas muito maravilhosas. A gente vê o americano se identificando com o design, com a proposta, com as fórmulas mais simples. Na Europa, a gente vê um desejo desesperado por produtos e novidades no mercado orgânico.

Tanto para a Europa quanto para os Estados Unidos, a gente vem em um plano de expansão. Hoje, qual é o cuidado que a gente tem para garantir a qualidade? A gente começou esse primeiro ano produzindo com parceiros, ou seja, com empresas terceirizadas. Quando a gente viu que a demanda aumentou de tal maneira que a gente precisava ter um volume de produção e estar atento a todas as etapas, e para ter mais agilidade na entrega dos produtos, nós viramos sócios da única fábrica que faz maquiagem orgânica no Brasil, que era uma das nossas fornecedoras. Isso faz com que a gente tenha garantia de tempo de produção, de ter a Simple sendo produzida dentro da sua própria estrutura. Isso para a gente é bem importante.

Existe esse plano de expansão e para ele existir, houve um investimento estratégico em tecnologia e maquinário para que esse produto possa crescer em volume de produção sem perder a qualidade.

 

8-Você acha que as grandes indústrias atuais poderiam adotar uma postura de maior responsabilidade social e ambiental, ou seria preciso romper com toda a lógica mercadológica para que isso seja possível?

Sou da opinião de que cada pessoa faz a sua parte sem julgar o outro. Eu imagino que não seja tão simples para grandes indústrias, é sempre mais simples para quem está engajado e é menor e quer mudar o mundo. Se você coloca a questão financeira e de crescimento acima de tudo, muitas indústrias não vão tomar a postura da verdadeira sustentabilidade porque ela é um pouco mais difícil, ela custa mais e deixa o processo mais lento.

Na prática, eu não faço parte de uma grande indústria hoje para conhecer todos os desafios que eles teriam para essa questão da sustentabilidade, mas eu realmente acredito que antes de eu falar algo sobre uma grande indústria, eu prefiro pensar na minha realidade, eu como pessoa física, o que eu posso fazer para melhorar meu mundo e não esperar por grandes indústrias, pelo governo, por nada.

Foi em cima desse questionamento que eu criei a Simple Organic, desse processo de pensar realmente apenas no que eu posso fazer. Eu acredito que a gente possa mudar o mundo, de maneira quase que como um trabalho de formiguinha, mas que faz a diferença. Se eu penso isso e cada pessoa que compra nosso produto também pensa isso: de que eu posso fazer a diferença ou que o meu consumo consciente faz a diferença, eu realmente prefiro pensar e olhar para as pequenas grandes atitudes do que para as grandes indústrias que eu imagino que não seja tão simples, porque quando mexe no lucro, em toda a cadeira, é uma questão de investimento e de tempo de produção.

Eu não sei se eles priorizam isso da maneira que a gente prioriza. Eu sou a favor da atitude individual de cada um. A minha atitude individual me levou a montar uma marca, em que todas as pessoas que trabalham se identificam com ela e as pessoas que consomem também.

 

Fotos: Divulgação/Simple Organic

Foto destacada do post: Reprodução/Vuê Fotografia

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